Digite sua busca e pressione Enter

Europa, História, Segunda Guerra

Linha Maginot: o forte de Hackenberg, bate-volta de Trier e Luxemburgo

Chegamos a Veckring, do lado francês da fronteira, numa tarde de julho de 2026. A Linha Maginot que estudamos no colégio tem cara de muralha contínua. O Ouvrage du Hackenberg é outra coisa: um prado em declive, capim cor de palha, umas peças de aço escuro brotando da grama, e tudo o que importa uns trinta metros abaixo.

O Hackenberg, código A19, é, segundo a associação que o administra, um dos maiores conjuntos da Linha Maginot: 19 blocos e cerca de 10 quilômetros de galerias, construídos de 1929 a 1935. Fica na Mosela francesa, a uns 20 km de Thionville, ao alcance de quem está em Trier, em Saarbrücken, em Luxemburgo ou no Vale do Mosela.

  • 19blocos: 17 de combate e 2 entradas
  • ~10 kmde galerias subterrâneas
  • 25 a 30 mde profundidade
  • 1.040soldados de capacidade

O que foi a Linha Maginot

A Linha Maginot foi o sistema de fortificações que a França construiu de 1929 a 1938 ao longo das fronteiras com a Alemanha, Luxemburgo, Itália e Suíça, batizado com o nome de André Maginot, o ministro da Guerra que defendeu a obra no parlamento. Eram 142 ouvrages, 352 casamatas e milhares de pontos fortificados menores, quase tudo enterrado. Em maio de 1940 o exército alemão não a atacou de frente: contornou-a pela Bélgica e pelas Ardenas. Depois dos anos 1960 boa parte da linha foi vendida ou abandonada, e alguns fortes viraram museus mantidos por associações. O Hackenberg é o que os Chemins de mémoire, o portal de memória do Ministério das Forças Armadas da França, chamam de o gigante da Linha Maginot: cerca de 1.800 operários trabalharam seis anos para erguer os blocos e escavar as galerias, e o exército recebeu o conjunto pronto em 1936.

O que se vê da superfície? Quase nada

Um forte da Maginot foi desenhado para não ser visto, e o Hackenberg cumpre isso tão bem que o visitante leva alguns minutos para entender onde está a fortaleza. No prado que fotografamos, o capim de julho tinha secado na crista do morro e seguia verde embaixo, salpicado de florzinhas brancas. No alto, umas poucas peças de aço enferrujado e uma cúpula rasa no nível do chão.

Prado de capim seco em julho com duas cloches de aço enferrujado e a cúpula de uma torre de artilharia quase no nível do chão
Duas cloches e a cúpula de uma torre no capim de julho. O forte corre de 25 a 30 metros abaixo desta grama.
Três visitantes conversam ao lado de uma cloche blindada do Hackenberg, sobre a laje de concreto, com o prado e a mata ao fundo
A escala humana: a cloche chega pouco acima da cintura de quem passa ao lado.

De perto, as peças ganham nome. As cúpulas fixas são as cloches, sinos de aço encaixados no concreto, com aberturas retangulares para observação e tiro de metralhadora.

O que a Linha Maginot esconde embaixo do capim seco

Ali debaixo existe uma cidade militar: cerca de 10 quilômetros de galerias a 25 ou 30 metros de profundidade, com uma galeria principal de 1.884 metros. Lá dentro faz 12 graus o ano inteiro. Na mobilização o forte comportava 1.040 soldados e 42 oficiais; em junho de 1940 estavam ali 940 homens e 41 oficiais.

A distância é grande demais para se vencer a pé, e por isso o Hackenberg tem trem: uma ferrovia elétrica de bitola de 60 centímetros corre pela galeria principal, puxada, segundo a associação, por uma locomotiva de 1935. A chapa pintada na lateral da locomotiva verde diz SW 1935, 600 volts, e o nome Hackenberg.

Locomotiva elétrica verde de 1935 do forte de Hackenberg na galeria principal, com o nome Hackenberg pintado na lateral e vagões com barris atrás
A locomotiva do trem da visita, com a chapa SW 1935 e o nome Hackenberg na lateral; atrás, os vagões de carga com barris.
torre cloches bloco 25 a 30 m de rocha e concreto galeria principal, 1.884 m entrada
Esquemático e fora de escala: mostra a relação entre superfície e galerias, não a planta do forte.

  1. 1Na superfície, só cloches, cúpulas e a face dos blocos.
  2. 2Entre elas e a galeria, 25 a 30 metros de rocha.
  3. 3Embaixo, a galeria principal e os trilhos de 60 cm.
  4. 4Poços ligam cada bloco à galeria, percorrida de trem.
Galeria do forte de Hackenberg com o piso úmido, os trilhos fazendo uma curva e cabos correndo pelas paredes
Piso úmido, trilhos em curva e cabos nas paredes: a galeria por onde a visita anda entre o trem e os blocos.
Visitantes diante do plano do Ouvrage du Hackenberg pintado num painel na parede de tijolo da galeria principal
Na galeria principal, o plano do forte na parede: o traçado em Y das galerias e os blocos numerados.

Por que as torres desaparecem no chão?

As torres de artilharia do Hackenberg são retráteis: sobem só na hora de atirar e descem para dentro do concreto, e é por isso que o prado parece vazio. A torre é o que mais chama atenção no passeio externo, encaixada num poço circular no meio de uma laje larga e rachada; o que aparece na superfície é a tampa de aço com o aro rebitado.

Torre de artilharia retrátil do Hackenberg no seu anel de concreto, com uma segunda cúpula ao fundo e as colinas do horizonte
A torre no anel de concreto e uma segunda cúpula na crista do capim, ao fundo.
Detalhe da cúpula de aço enferrujado da torre retrátil, com o aro rebitado e as aberturas dos canos
O aro rebitado, a ferrugem cor de terra e as aberturas por onde saem os canos.

O forte somava 25 canhões, sendo 7 anticarro, 32 metralhadoras e 59 fuzis-metralhadores, com paióis para 79.700 granadas e 3,5 milhões de cartuchos, incluindo duas torres de morteiro de 135 mm e torres de 81 mm. A associação fala em até 4 toneladas de granadas por minuto.

Voluntários recolocaram em funcionamento um bloco da ala oeste, com elevador, mesa giratória e plataforma elevatória; a ala leste segue fechada porque o terreno cedeu sobre camadas de gesso. A nossa única foto de artilharia por dentro veio de uma dessas torres: a culatra aberta, a granada amarela em pé ao lado e a luz do dia entrando pelo cano, num cubículo de chapas rebitadas com ferrugem escorrendo dos parafusos.

Interior de uma torre de artilharia restaurada do Hackenberg, com a culatra do canhão aberta, uma granada amarela e a luz do dia entrando pelo cano
Dentro da torre restaurada: a culatra, a granada amarela e o disco de luz que entra pelo cano.

Os blocos de combate, um a um, na mata

Do lado de fora corre um sentier historique com painéis, e é ele que dá a medida da coisa. Você anda de bloco em bloco por escadas de concreto e capim recém-cortado, e cada um tem uma cara: uns ao sol, com uma craquelagem branca que parece um mapa de rios; outros na sombra, manchados de vermelho e cobertos de hera.

Fachada de um bloco de combate do Hackenberg ao sol, com seteira blindada recuada, cerca de tela e calçada de concreto
A face de um bloco ao sol, a seteira recuada na sombra e a craquelagem do concreto.
Bloco de combate do Hackenberg na mata, com duas seteiras, cloche no topo e concreto manchado coberto de hera
O mesmo tipo de bloco engolido pela mata, com hera no flanco e uma cloche entre as árvores.
Dois visitantes de costas subindo a escada de concreto entre os blocos do Hackenberg, sob céu azul de verão
Entre um bloco e outro se anda ao ar livre, com o feno secando no barranco.

Em 9 de dezembro de 1939 o rei George VI veio conhecer o forte. Em 1940 o Hackenberg nunca foi atacado de frente. Deu fogo de cobertura a posições vizinhas, viu a ruptura alemã acontecer no Sarre em 15 de junho e acabou evacuado em 4 de julho, depois do armistício. O ferimento que se vê hoje veio quatro anos mais tarde, e da outra direção.

A manhã de 16 de novembro de 1944

No fim de outubro de 1944, soldados alemães de um batalhão de posição montaram um observatório no alto do Hackenberg. Com artilheiros do 416.º Regimento de Infantaria, recolocaram em serviço os três canhões de 75 do Bloco 8, ainda cheio de munição.

Em 9 de novembro, o 357.º Regimento da 90.ª Divisão de Infantaria americana cruzou o Mosela. No dia 14, ao atravessar terreno descoberto ao sul de Budling, a tropa entrou no campo de tiro do Bloco 8 e os 75 abriram fogo: 62 baixas americanas, 8 delas mortos. Destruidores de tanques M10 atiraram de longe sem resultado. Quem encerrou a questão foi um canhão autopropulsado M12, de 155 mm, levado pelos bosques até 1.800 metros de frente ao bloco, no limite do campo de tiro dos canhões do bloco. Abriu fogo às 10 horas do dia 16 de novembro; às 11 horas o Bloco 8 estava neutralizado. As cicatrizes da fachada não são ruína de abandono: são o registro daqueles dias de novembro de 1944.

Fachada do Bloco 8 do Hackenberg com o concreto arrancado, vergalhões expostos e o cano de um canhão numa seteira
O Bloco 8 hoje: fachada arrancada, a armadura de aço à vista e o cano ainda na seteira.
Detalhe da fachada destruída do Bloco 8, com a malha de vergalhões exposta e crateras no concreto
De perto, a malha de vergalhões vira um tecido enferrujado sobre as crateras.

Os painéis registram uma ironia: o canhão de 155 mm que venceu o Bloco 8 era o GPF francês da Primeira Guerra, adotado pelos americanos em 1917. Uma peça francesa venceu um bloco francês defendido por alemães. A ala oeste caiu no dia 17 e o forte inteiro foi ocupado em 19 de novembro. A munição que sobrou acabou jogada no Mosela.

Seteira blindada do Bloco 8 vista de perto, com o cano do canhão, marcas de impacto na chapa de aço e vergalhões retorcidos
A chapa blindada da seteira com a marca de um impacto no aço; em volta, o concreto se desfez até o seixo do agregado.

Fábrica subterrânea e campo ao lado

Entre 1940 e 1944 o forte teve uma vida que não cabe no folheto. Cerca de 50 soldados franceses ficaram mantendo as instalações e ensinando os alemães a operá-las, e só partiram para o cativeiro um ano depois dos companheiros. Entre o fim de 1943 e o início de 1944, toda a parte traseira, a salvo dos bombardeios, virou fábrica subterrânea: a Klöckner-Humboldt-Deutz instalou ali máquinas-ferramenta operadas por 200 trabalhadores, metade mulheres trazidas da Ucrânia.

Ao lado, o campo de Veckring serviu de quartel a jovens alemães do serviço de trabalho obrigatório, e parte dele recebeu prisioneiros de guerra do Exército Vermelho. Os painéis são diretos: foram tratados como animais e muitos morreram de desnutrição. Depois da libertação, a 90.ª Divisão americana se instalou no mesmo campo e Patton discursou às tropas ali.

Um dos painéis traz, atribuída a Churchill, a frase que explica por que a associação mantém tudo isso de pé: um povo que esquece o seu passado está condenado a revivê-lo.

Como visitar o Hackenberg

Raphael Almeida, autor deste guia, numa galeria do forte de Hackenberg
Raphael, autor deste guia, numa galeria do Hackenberg em 13 de julho de 2026.

O Hackenberg se visita só em visita guiada, de 2h a 2h30, com reserva antecipada. O forte está aberto ao público desde 1975 e é administrado pela associação de voluntários AMIFORT Veckring, que recebe dezenas de milhares de visitantes por ano.

Como funciona: visita só guiada, de 2h a 2h30, com trem elétrico e caminhada. Idiomas: francês, inglês e alemão, sem português. Reserva antecipada obrigatória, animais não permitidos, carrinho de bebê aceito; mobilidade reduzida acompanha cerca de 80% do percurso.

Horários publicados no site oficial (consulta em setembro de 2026): de 1.º de abril a meados de novembro, todos os dias, com saída às 14h30 em ponto de segunda a sexta e entre 14h e 15h30 nos fins de semana; no inverno, quartas, sábados e domingos às 14h. O calendário ainda repetia o padrão do ano anterior quando consultamos, então confirme no site oficial.

Tarifas publicadas em 2026: adulto 15 euros, reduzida 12, criança até 16 anos 8 e gratuidade até 3. Confira a página de tarifas.

Leve casaco mesmo em dia de 30 graus, e calçado fechado: o piso da galeria tem trilhos e trechos úmidos. Como chegar: na prática, só de carro. Thionville fica a cerca de 25 minutos, Metz a 40 e Luxemburgo a 50; de Trier ou de Saarbrücken dá para ir e voltar no mesmo dia.

Hackenberg em uma consulta

O que é
Ouvrage du Hackenberg, código A19, em Veckring, Mosela.
Construção
De 1929 a 1935.
Escala
19 blocos, cerca de 10 km de galerias a 25 ou 30 m.
Guarnição
Capacidade para 1.040 soldados e 42 oficiais.
Visita
Só guiada, 2h a 2h30, com trem; reserva obrigatória.
Temperatura
12 graus o ano inteiro.
Quem administra
AMIFORT Veckring, associação de voluntários; visitas desde 1975.
De carro
Thionville 25 min, Metz 40 min, Luxemburgo 50 min; Trier e Saarbrücken no mesmo dia.

Combina com: uma base em Trier ou no Vale do Mosela, com o dia seguinte em Cochem ou um bate-volta a partir de Luxemburgo; para roteiros temáticos, o nosso tour de Segunda Guerra na Alemanha e os 3 locais de Segunda Guerra do lado alemão.

Quer encaixar o Hackenberg no seu roteiro?

Horário fixo, reserva antecipada e visita só em francês, inglês ou alemão: é aí que o passeio costuma travar. A Viagem Alemanha desenha viagens sob medida desde 2014. O nosso foco é a Alemanha, a Suíça e a Áustria, mas trabalhamos também nas regiões de fronteira quando elas entram na narrativa da viagem, como aqui, e no Benelux e em Praga. Os roteiros históricos, da Primeira e da Segunda Guerra, são uma das nossas especialidades, sempre com guia em português; Verdun fica a pouco mais de uma hora do Hackenberg. Montamos o dia em volta do horário da saída, com o transporte resolvido. Veja as viagens que organizamos pela Alemanha e o nosso tour de Segunda Guerra.

Fale com a nossa equipe

Perguntas frequentes sobre o Hackenberg

A Linha Maginot ainda existe e pode ser visitada?

Sim. Depois dos anos 1960 boa parte da linha foi vendida ou abandonada, mas vários fortes viraram museus mantidos por associações. O Hackenberg se visita só com visita guiada e reserva antecipada; o calendário está no site oficial.

Precisa reservar para visitar o Hackenberg?

Sim. A visita é apenas guiada, com horário fixo de saída, e a reserva antecipada é obrigatória segundo o site oficial da AMIFORT.

Quanto tempo dura a visita?

Cerca de 2h a 2h30, incluindo o trajeto de ida e volta no trem elétrico pelas galerias.

Existe visita em português?

Não. Os idiomas oferecidos são francês, inglês e alemão.

Quanto custa a entrada em 2026?

As tarifas publicadas no site oficial em 2026: adulto 15 euros, reduzida 12, criança até 16 anos 8, gratuidade até 3. Confirme no site oficial antes de ir.

Preciso de casaco mesmo indo no verão?

Sim. As galerias ficam a 12 graus o ano inteiro, independentemente do calor lá fora.

O que são as marcas no Bloco 8?

São danos de combate de novembro de 1944. Um canhão autopropulsado M12 de 155 mm, a 1.800 metros, abriu fogo às 10h do dia 16 e o bloco estava neutralizado às 11h.

Dá para chegar sem carro?

Na prática, não. O forte fica em zona rural em Veckring, a cerca de 20 km de Thionville; de Trier, Luxemburgo ou Saarbrücken o caminho é de carro.

A Viagem Alemanha organiza tours históricos sob medida?

Sim. Roteiros históricos personalizados, da Primeira e da Segunda Guerra, são uma das especialidades da Viagem Alemanha, sempre com guia em português. O foco é a Alemanha, a Suíça e a Áustria, mas atendemos também as regiões de fronteira quando fazem parte da viagem, o Benelux e Praga. O Hackenberg entra como bate-volta a partir de Trier ou de Luxemburgo.

A visita é possível para quem tem mobilidade reduzida?

Em parte. Segundo a associação, o percurso é acompanhado em cerca de 80%, e carrinhos de bebê são permitidos.

Fotos: acervo próprio Viagem Alemanha, 13 de julho de 2026.

Compartilhar:
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado

Entre em contato através do nosso e-mail:
[email protected]

Nome
Para onde quer Viajar?
Gostariam da nossa ajuda?

Tradições

Natal na Alemanha 2026: quando ir, os melhores mercados e como montar a viagem

Vinho quente alemão (Glühwein): o que é, receita e onde provar

Wallenstein 1630 em Memmingen: guia da festa histórica

Artesanato Local e Souvenirs da Alemanha: Tradição, Cultura e Encanto

Roteiro Floresta Negra: guia com roteiros de 3, 5 e 7 dias para explorar a região mais mágica da Alemanha

Festival de Cinema de Munique: Uma Celebração da Sétima Arte na Baviera

Roteiros de Carro pela Floresta Negra: natureza, vilarejos e experiências inesquecíveis

Festivais e Eventos Culturais na Floresta Negra: Tradição, Cores e Sabores ao Longo do Ano

Desenvolvido por
onSERP Marketing